sexta-feira, 17 de julho de 2009

Eugênio Bucci e a síndrome da interpretação apressada

Não sei porque me dei ao trabalho de ler um artigo do jornalista Eugênio Bucci intitulado “Adeus às almas”, publicado ontem em O Estado de S. Paulo. Não costumo ler a obra de doutores em jornalismo, na verdade. O jornalismo, no meu modo de ver as coisas, não é uma disciplina científica, de maneira que, se não exige uma graduação, menos exigirá uma pós-graduação, o que torna em portadores de títulos vazios os mestres e doutores nessa área. A quem pode interessar, pois, a opinião de um doutor em nada?

A leitura do artigo de Bucci só serviu para confirmar esse meu ponto de vista, uma vez que, a partir do funeral de Michael Jackson, o jornalista conclui que a indústria do entretenimento espetacularizou de tal modo a vida, que a religião perdeu sua razão de ser na ordem das coisas. Trata-se de uma tese profundamente ambiciosa e da mais “elevada profundidade”, como diria Hegel. Acredito que tenha sido justamente tamanha pretensão que despertou meu interesse.

Bucci começa seu raciocínio com duas premissas falsas. Segundo ele, desde que morreu, Michael Jackson “monopolizou o noticiário” e “a humanidade só tem olhos para o cantor de Ben”. No que se refere à humanidade, devo dizer que, pelas minhas menores contas, ao menos quatro integrantes dela aí não se incluem, sendo eles eu, meu sobrinho, minha mulher e meu amigo Rodrigo Gurgel, mas creio que um levantamento estatístico reduziria em muito a porcentagem daqueles que, nestes dias, só tem olhos para o cantor de Ben.

Quanto ao “monopolizou o noticiário” devo crer que Eugênio Bucci se limita a assistir aos telejornais, pois, sinceramente, de 25 de junho para cá, li os jornais impressos todos os dias, como também as revistas e a internet, e o assunto que ocupava as principais manchetes era sempre a esbórnia do Senado Federal sob a presidência do imortal José Sarney.

A imprensa escrita, aliás, não se presta muito ao monopólio de qualquer notícia, pois, ainda que a morte de Michael Jackson tenha prevalecido nos cadernos de (in)cultura (do que não estou convicto), as editorias de política, economia, cidades e esportes não deixaram de existir e de manter seu foco na cobertura dos assuntos que lhes são afeitos.

Mas vamos admitir que isso fosse verdade e seguir adiante, pois Bucci afirma que se entrega à pauta Michael Jackson “para registrar algo que, apesar do falatório global, não foi bem diagnosticado. O funeral de Michael Jackson explicitou, como nenhum outro episódio, o modo como a indústria do entretenimento engoliu as outras esferas da vida – a religiosa em particular”.

Ora, talvez esse algo não tenha sido diagnosticado por absoluta falta do que se diagnosticar. Elementar, meu caro Watson! Por mais espetacular que tenha sido o funeral de Michael Jackson, ele não pode ter explicitado que a indústria do entretenimento engoliu as outras esferas da vida, em primeiro lugar porque não existe nenhuma indústria do entretenimento. Isso não passa de uma abstração sociológica, com um ranço ideológico frankfurtiano, que nem metaforicamente é capaz de engolir coisa alguma.

Se o megavelório de Michael Jackson dominou as telinhas de TV, não dominou a atenção dos telespectadores e, ao menos aqui no Brasil, esteve longe de reproduzir aquela hipnose de massa que se presencia numa final de Copa do Mundo em que a seleção brasileira faz parte da disputa. Nesse caso, sim, se poderia falar que o espetáculo arrebata a esmagadora maioria de nossa população. Em outro, por mais espetacular que seja, isso me parece um grande exagero.

Pois bem, se o episódio do funeral de Michael Jackson não foi capaz de fazer o país parar por alguns instantes, de que modo isso poderia explicitar que todas as esferas da vida foram engolidas pela espetacularização? O fato de sei lá que pastores protestantes terem topado participar do misto de funeral e show que se promoveu para Michael Jackson não autoriza absolutamente a concluir que “na era digital, a massa engoliu a missa”, até porque a missa é uma cerimônia católica e uma conclusão do gênero mistura católicos com protestantes e só revela a enorme ignorância de Bucci no que se refere ao complexo fenômeno religioso.

Ignorância, sim, mas não só isso. A análise do doutor em generalidades permite entrever a má-fé com que aqueles que se autodenominam “herdeiros do iluminismo” dispensam à religião e ao sagrado. Por sinal, avançando ainda mais na argumentação desconcatenada de Bucci descobre-se o porquê de ele apregoar levianamente que “a linguagem do show business, com trinados em semitons, meneios de cabeça com os olhos fechados e luzes computadorizadas triunfou sobre eucaristias, homilias e transcendências confessionais”.

Avalia Bucci que “é por aí” – isto é, pela sua perspectiva – “que se entende [também] porque a política se despolitizou e, despolitizada, vem tentando se resolver pela estética da publicidade”. Organizando seu pensamento a partir de categorias marxistas, Bucci deve considerar a política como território sagrado e, se o seu suposto sagrado foi engolido pela indústria do entretenimento, porque não projetar esse sacrilégio para o sagrado de fato e colaborar com a depredação gramsciana dos valores sociais como um todo?

Ora, dr. Bucci, a política se espetacularizou por causa dos próprios políticos. Os meios de comunicação – e não nenhuma inexistente indústria do entretenimento – primeiramente reflete essa espetacularização, antes de colaborar com ela. Quem mais se beneficia da espetacularização da política no Brasil senão o próprio presidente Lula, o Chacrinha do do poder Executivo, com cujo governo o próprio Bucci colaborou até pouco tempo atrás?

Lembre-se Bucci de que o PT foi o primeiro partido político nacional a se utilizar de recursos da criatividade publicitária, na campanha de 1988, que elegeu Luíza Erundina à prefeitura de São Paulo. Foi também o primeiro partido brasileiro a mobilizar sistematicamente artistas da TV para atuar em sua propaganda. Se o PT, na planície, politizou o espetáculo, não é de espantar que, no Planalto, ele espetacularize a política. Nem isso é motivo para concluir que a espetacularização engolfou o universo. Engolfou quando muito o Jornal Nacional e a mente sócio(pato)lógica de Eugênio Bucci e outros acólitos do núcleo petista da Escola de Comunicação e Artes.

Em tempo, alguém pode me explicar quem é, afinal, esse tal de Michael Jackson?

6 comentários:

Guilherme Ferreira Araújo disse...

Tibiriçá, gostaria de parabenizá-lo por mais um excelente texto.

Disseram-me que noutro dia, num capítulo da novela "Caminho das Índias", foi encenado um diálogo no qual duas personagens discutiam a possibilidade de instauração de uma censura na internet. Ambas concordavam em que tal medida deveria ser tomada, já que tudo pode ser dito atualmente na grande rede, seja em blogs, seja em websites, etc. Um blog como o teu, que desmonta na base as bobagens que são proferidas na nossa grande mídia, é provavelmente um exemplar que deixa de cabelos em pé o exército dos marxistóides de plantão (sempre a serviço do nosso tão querido e boçal Lula, o molusco). Sendo assim, ele deve ser uma espécie de incentivador de opiniões grotescas como aquela emitida (ainda que discretamente) pela Globo através de sua novela. Não quero dizer, com isso, que você deveria tomar cuidado com o tom dos escritos, ao contrário, penso que não deve temer em momento algum os possíveis ataques e acusações que possa a vir a sofrer.

O Reinaldo Azevedo tentou identificar a origem dos IPs de vários de seus detratores. Resultado: a maioria vinha de computadores de pessoas que trabalham na Petrobrás. Conclusão: são pessoas que, a mando do governo, fingem ser leitores comuns que só querem emitir suas opiniões de forma gratuita, sem interesses maiores. Esta é a mentalidade que impera em nosso país. Outro dia, numa discussão com um sujeito num blog, o cara me xingou com nomes extremamente xulos, disse que eu era filho de fazendeiros ricos e que só assistia rede Globo, tudo isso porque eu discordei das opiniões marxistas dele. Detalhe: eu era um completo desconhecido para o sujeito.
A estreiteza mental das pessoas, aqui no Brasil, é o que mais me espanta no final das contas.

Cfe disse...

"Em tempo, alguém pode me explicar quem é, afinal, esse tal de Michael Jackson? "

Um sujeitinho que morreu triste porque não podia dizer que era branco.

Acho isso uma injustiça: se lá, nos EUA, pode mudar de sexo no documentos depois de mexer na genitália porque não pode se apresentar duma etnia diferente daquela que nasceu?

KlauSS disse...

hauahuahu

Olha, embora eu gostasse do Michael Jackson qd moleque existe um fenômeno midiático em torno dele que realmente o deixou muito popular... Acho sim, que nessa área de entretenimento ele tinha um bocado de talento, e que sim, existe uma legião de fanáticos que o tratam como um ídolo, embora isso tenha mais a ver com psicopatologia que com sociologia.

Mas quanto ao artigo do Bucci, não percebe ele que a "espetacularização" da política fez o contrário - politizou ainda mais a vida cotidiana? E vem me dizer que ela se despolitizou pq virou showbizz? Faça-me o favor! Isso é coisa de gente cega, surda, burra e retardada!

Eu não diria a religião, mas a religiosidade em geral sim, foi muito afetada pela contracultura, e outras formas de revolução cultural... Curiosamente não vejo o fenômeno midiático Michael Jackson como uma dessas armas (curiosamente e talvez até paradoxalmente já que, dentro da revolução Gramsciana, se ele tivesse opiniões polêmicas contra a religião - que ele não tinha - a mídia poderia até usar suas opiniões para desmoralizar a religião)... É só ver como hoje em dia é fácil ser alvo de risadas ou de adjetivos como "fanático religioso", "fundamentalista", "preconcentuoso" o cara que defende Cristo e/ou a fé e a Igreja Católica.

Já um fariseu como o Bucci, que finge defender a religião fazendo o jogo inverso dizendo que a culpa é do famigerado capitalismo (e não do socialismo, ou do revolucionarismo em geral), quando deixa de dar o verdadeiro nome aos bois, ou é muito mentiroso, ou é muito, mas muuuuuuuuuuito tapado...

Como o Tibiriçá diz que ele já ajudou o PT em outras oportunidades, com certeza é os dois!

Anônimo disse...

É sempre impressionante como, sob o verniz da empáfia (explicitar, por exemplo, é um verbo-senha que os identifica), o que se tem é uma argumentação inconsistente porque construída a partir de entidades gerais e abstratas (e eles se pretendem materialistas)-"a mídia" (outra palavra-senha),"a industria de entretenimento", "o povo". Quando, se o que se pretende é uma análise da realidade, o que de fato se tem são seres singulares, complexos, ambíguos - qe mais podemos descrever doque qualificar.
Esses caras são muito chatos nessa mistura de burrice e pedantismo que resulta em falsidade pura e simples.

Bruno Parpaiola disse...

Querido Tibiriçá...ao ler o texto lembrei-me da máxima do piauiense Mariano de Andrade. "A Ignorância é audaciosa"... e como é!

Anônimo disse...

Se você diz que não existe indústria do entretenimento é porque já foi engolido por ela.

cuidado! O pior cego é aquele que não quer ver.

Ah, esqueci de comentar que um texto tão mal escrito só podia ter sido redigido por alguém que acha que o jornalismo não precisa de especialização.