Além de marcar o início do fim de uma era inaugurada em novembro de 1917, a queda do muro de Berlim serviu também para evidenciar a irrelevância do pensamento de gente como Eric Hobsbawn, que já foi tido por aqui como o historiador dos historiadores, por unir o marxismo à objetividade da historiografia inglesa, quesito em que os historiadores franceses sempre deixaram muito a desejar. Na entrevista dada por ele à Folha de S. Paulo deste domingo, nada do que o autor de “A era dos extremos” diz vai além da constatação do óbvio, como assinalar que Rússia perdeu a condição de superpotência e que aumentou o número de Estados constituintes da União Européia.
Há também, é claro, um gritante ressentimento com os rumos da História, que se traduz em afirmações de um absurdo ímpar como declarar que o fim do Império soviético reintroduziu a guerra na Europa (Bálcãs) e acabou com um “sistema internacional estável”. Ora, a “estabilidade” a que ele se refere atendia pelo nome de Guerra Fria e, na antiga Iugoslávia, vigorava simplesmente uma pax romana, que terminou tão logo ruiu o regime autoritário que a impunha. De resto, querer atribuir o “lugar perigoso em que o mundo se transformou hoje em dia” (sic) ao fato de inexistir uma superpotência a rivalizar com os Estados Unidos nada mais é do que a expressão do mais tradicional e patológico antiamericanismo.
A queda do muro de Berlim e, principalmente, a implosão da União Soviética deixou temporariamente desorientados os “intelectuais”, os profissionais das chamadas ciências humanas, cuja cientificidade está em geral assentada sobre flácido pilar da ideologia. Por não mais que um quinquênio, os mestres universitários viram a viola em cacos e, seguindo o exemplo daquela personagem magistral que é Simão Bacamarte, se recolheram às suas casas verdes, a observar o próprio umbigo e a buscar uma maneira de reciclar a retórica da luta de classes, de modo a dar aparência de vitória à derrota que a prática infringiu à sua teoria. Voltaram à cena aos poucos.
Agora, a crise financeira de 2008 parece ter lhes restituído definitivamente o vigor e eles vêm tentando transformar a rachadura superficial que se abateu em Wall Street num episódio de simbolismo análogo ao da queda do muro de Berlim, sobre a qual já tecem avaliações delirantes, que expõem nos cadernos de cultura, para animar os comparsas do mundo todo com a miragem de que a economia capitalista também pode implodir, cedendo lugar a um mundo igualitário e justo (o que é um paradoxo) e abrindo definitivamente o caminho para a construção da utopia socialista, dessa vez menos careta, mais hedonista e multicultural. Se a ilusão do socialismo não existisse, o que seria dos intelectuais?
Feriado demagógico!
15 horas atrás

11 comentários:
Qual é a diferença de um burro (com todo respeito que tenho pelos animais) que usa uma tapa (acessório para fazê-lo caminhar em linha reta) de um intelequitual socialista? Tirar o socialismo dessa canalha é o mesmo que desalojá-los de suas máscaras (tapa).
O que seria dos intelectuais? Eles perderiam seu meio de vida, que é o de criticar o sistema e a sociedade que os sustenta.
Aqui no Brasil, essa gente inútil vive nas universadides públicas e particulares, a gozar das mordomias da vida burguesa, mas se dedicam tão-somente a fazer proselitismo ideológico.
A única coisa que sabem fazer é repetir clichês e chavões marxistas em suas aulas e doutrinar alunos incautos, condenando, a cada geração, um percentual significativo de jovens a uma espécie de burrice envaidecida que os fazem crer que já resolveram todos os enigmas do universo. A luta de classes explica tudo e todos os conflitos e problemas da sociedade têm sua origem na exploração e sua solução na revolução.
Esses professores vivem de demonizar o capitalismo. Depois, dirigem-se à sua sala com ar condicionado, tomam um cafezinho e quando terminam, pegam seus carros importados e vão pra casa, assistir tv por assinatura ou navegar na internet. No dia seguinte, reiniciam a sua missão revolucionária de gabinete.
Toda uma casta de idiotas privilegiados foi criada por essa moda socialista. Pedantes e corporativistas, se valem da sua posição de professores para dar vazão às suas frustrações.
Na universidade federal do meu estado, temos uma figura que se destaca entre os professores marxistas. Já foi, inclusive, objeto de artigo do Reinaldo Azevedo. Veja só, Tibiriçá, o que vai na cabeça desse cidadão, conforme relato de um orgulhoso e jovem discípulo:
"O ano era 2005. Eu tinha acabado de entrar na universidade. Iria cursar jornalismo. No departamento de comunicação da Ufal, ocorria a semana do estudante de comunicação. Numa das salas, havia uma palestra com o professor de Filosofia Ivo Tonet. O tema: “Socialismo ou barbárie”. Ou alguma coisa do tipo. Não lembro bem. O certo é que o tema me interessou, entre outras coisas, por razões apaixonantes. Num determinado ponto da palestra, o professor dizia:
- O futuro da humanidade depende do triunfo de uma revolução socialista mundial. Do contrário, iremos todos para a barbárie. – fez uma rápida pausa e continuou – Uma revolução não é um processo necessariamente violento. Mas a contra-revolução sim. A burguesia vai querer retomar o que perdeu. Diante disso, os trabalhadores precisam pegar em armas para defender suas conquistas e a revolução. Nessas condições a guerra civil é inevitável.
Quando o professor Ivo Tonet terminou sua palestra, um rapaz levantou a mão para fazer uma pergunta.
- Professor – começou ele – mas não há nenhuma possibilidade de haver uma revolução pacífica?
O professor Ivo lembra, fisicamente, o Paulo Coelho. Mas a resposta não veio revestida de nenhuma espécie de magia.
- Olhe – fez uma parada cínica e teatral – talvez haja uma maneira pacífica de tomar o poder. Você pode elaborar um ofício e enviar para a burguesia, solicitando em nome do proletariado que ela pare a exploração e deixe o poder. Não creio que você vá obter sucesso. Mas fique à vontade para tentar."
O nome da criatura é Ivo Tonet. E vive, com todo o conforto de uma vida de burguês, graças ao salário que todos nós lhe pagamos, via impostos. E para quê? Para que ele possa viver pregando a revolução socialista na universidade. Se não houvesse socialismo, talvez ele e outros encontrassem alguma coisa útil para fazer na vida.
hobsbobo... O autor das "eras" já era - menos para a bolha, cela va sans dire.
Ah, foi constrangedor ver, no "ComuNews Painel" um senhor como Giannoti falando que a queda do muro trouxe conseqüências danosas para a Democracia como a chegada da Direita ao poder.
Por um momento achei que ele não seria contestado, mas um outro debatedor, ainda que timidamente, lembrou que a Direita também é parte do jogo democrático.
Se tinha algo a dizer ainda depois do post, o Mário já disse tudo.
E o pior é que eu, que fiz a cagada de me formar como bacharel em artes cênicas ouvi de professores exatamente o que o Mário diz: Que os intelectuais (ali tomados como qualquer um que se forma no curso) devem "criticar o sistema e a sociedade". O que faltou foi só o fim da frase: "que os sustenta". É o que define melhor o que eles entendem como intelectual, mas não declaram.
"...quesito em que os historiadores franceses sempre deixaram muito a desejar."
Espere aí, Tibiriçá. Na França, houve gente como Fustel de Coulanges, Tocqueville, Montalembert, Guizot, Joseph Calmette, Régine Pernoud e Taine. Mesmo Michelet e Sismondi, se lidos com cautela, têm as suas luzes. Isso sem falar de Henri Pirenne, importantíssimo, que era belga. A historiografia de língua francesa já foi muito respeitável, e até hoje há alguns bons representantes da velha tradição (a maior parte não é traduzida por aqui, onde só têm vez os "demolidores do real"). Aliás, o caso francês precisa ser estudado como exemplar, uma vez que a "traição dos clérigos", por lá, desfigurou a cultura como um todo.
DD,
Antes de mais nada, aproveito a ocasião para reverenciar "A cidade antiga", de Fustel de Coulanges, obra cuja grandeza é até difícil de dimensionar. Um clássico!
Claro que o que fiz foi uma generalização, injusta como toda generalização. Mas há, na minha opinião, uma tendência de os franceses deixarem de lado a objetividade factual, em nome da interpretação teórica. E vale a pena enfatizar isso num Brasil tão francófilo.
Abraço,
Tibiriçá
Cláudio,
Seu comentário me fez assistir ao Globonews ontem à noite. O Gianotti é uma figura nefasta, que traz no rosto as marcas da frustração e do ressentimento. No pouco que falou só traiu sua soberba e seu autoritarismo. Já pensou um diálogo entre ele e Sócrates? Gianotti seria reduzido a pó de traque!
Abs.
Tibiriçá
Compreendo o que você quis dizer, Tibiriçá. Só interferi para sublinhar a decadência cultural da França, que é um fenômeno muito aflitivo e que deve ser matéria de reflexão séria, visto que é o país mais antigo da Europa. Não é como a decadência espanhola nos séculos XVII e XVIII, caracterizada por certo apego fanático às suas tradições; é, ao contrário, uma proposta de modernidade meio falida, que tem alguma coisa a ver com o isolamento histórico do país, mas vai bem além. Sente-se que, ali, houve expurgos sucessivos - e, claro, o bom-senso sofreu golpes violentíssimos. É muito esquisito: qualquer povo que seguir um caminho semelhante tem um destino muito duvidoso.
Mas a melhor definição foi dada por um francês mesmo: "Parece que a França está condenada a realizar eternamente a decapitação de Luís XVI".
É triste, em suma.
Vale!
DD,
Mais uma vez, além de ter toda a razão, você aponta um problema para o qual confesso que não tinha atentado, mas, de facto, a França do século XX perde feio para a dos séculos XVIII e XIX. Acho que, em parte, isso se deve à academização da vida intelectual francesa, bem como ao escolasticismo semiótico-estrutural, n'est-ce pas? Lá vou eu fazendo generalizações de novo.
Vale!
" (...) traz no rosto as marcas da frustração e do ressentimento."
Exatamente o comentário que minha esposa fez enquanto assistíamos ao programa.
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