quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A rigor, nenhum ultraje em mandar Lula se tratar no SUS

Fiquei sabendo que havia um pessoal querendo que Lula se tratasse no SUS no meu facebook, no dia seguinte à notícia de que ele estava com câncer na laringe. Achei engraçado e não dei maior atenção à proposta. Depois de saber que ela deixou indignados alguns jornalistas, comecei a pensar no caso, pois não acho que a sugestão, disparatada como qualquer bravata, seja ultrajante e nem motivada por qualquer espécie de ódio arraigado contra o personagem.

Acho que, por trás dela, encontra-se o mesmo tipo de humor e de crítica que se encontra na eleição do palhaço Tiririca, a qual reflete uma compreensão de massa, um entendimento massificado de um fato, que, aqui, é a política. A que chamo de “entendimento massificado”? A uma forma de encarar o problema que é certamente imediatista, redutora e ditada mais pelo instinto do que pela razão, como toda manifestação de massa. Nem por isso deixa de ser justificável em muitos casos e, especificamente, neste.

No começo do ano, li o ensaio “O prazer da filosofia”, do filósofo norte-americano Robert C. Salomon, de quem já tinha lido “Paixão pelo saber”, que é uma breve e competente história da filosofia (que busca inclusive incorporar ao saber filosófico o conhecimento religioso indiano e oriental). Trata-se de um dos últimos textos do filósofo, que nele rompe com a tradição analítica da filosofia anglo-saxônica, visando recuperar a paixão que também informa ou deve informar o filosofar.

Com esse objetivo, Solomon examina o papel do sentimento sobre a reflexão e, de acordo com isso, procura demonstrar que o conceito de justiça teria se originado do sentimento de vingança e a prova que ele aduz a isso é o fato de a vingança incluir uma proporcionalidade, no sentido de que queremos que o criminoso pague pelo que fez com a mesma intensidade do sofrimento que ele causou na vítima, nem mais nem menos.

O sentimento de vingança, por mais que o pay back seja animal e violento, tem embutido um componente racional, a proporcionalidade, que o ultrapassa e avança em direção à justiça. Essa é a tese de Solomon, que me impressionou bastante e que vou abraçar aqui. Creio que é um mecanismo de vingança como esse – instintivo e violento, mas proporcional, que se esconde por trás da sugestão de que Lula vá se tratar no SUS ou na eleição de Tiririca.

Fazer a sugestão do tratamento no SUS ou votar no palhaço é uma forma de dar o troco pelas ofensas sofridas pelo “povo”, pela massa. Tiririca é o troco dado ao Parlamento e o SUS é o troco dado a Lula pela sua tagarelice irresponsável ao jactar-se de supostas melhorias que seu governo teria promovido no sistema de saúde público. Tagarelice por tagarelice, a proposta de que ele vá se tratar pelo SUS é bastante proporcional. Disparatada como qualquer bravata, já disse, não vejo porque ela seja um ultraje, exceto na mentalidade de certos jornalistas sobre a qual talvez eu fale oportunamente.

0 comentários: